SAÚDE COLETIVA: Coletânea. No.2, Novembro de 2008. ISSN: 1982-1441
nation2.com  



Total de visitas: 175416

Satisfação com a Vida

 

 

 

Gislene Farias de OLIVEIRA

Janine Priscilla S.P. COSTA

Gésio Eduardo A. RODRIGUES

 

Satisfação com a Vida em Portadores de Necessidades Especiais

 

 

 

 

Resumo

 

A satisfação com a vida é considerada como um dos principais indicadores de bem-estar subjetivo, sendo avaliada como uma medida geral ou como referência a áreas importantes da vida, a exemplo do trabalho e da família. Avaliar a satisfação com a vida dos portadores de necessidades especiais e verificar se este construto se correlaciona ou varia em função de variáveis demográficas (sexo, idade, escolaridade), foi o objetivo do presente estudo. A coleta de dados englobou um questionário com caracterização dos sujeitos, dados sobre a deficiência, medida de Satisfação com a vida de Ed Diener (Satisfaction With Life Scale), uma escala de 7 pontos, variando de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente)  e, a perguntas visando uma avaliação do impacto da necessidade especial na sua vida. Responderam ao questionário 48 pessoas residentes em Juazeiro do Norte-CE, com idades variando entre 14 e 71 anos, de ambos os sexos, sendo a maioria do sexo masculino (60,4%). Os resultados demonstraram que em 70,9% dos entrevistados acreditam que na maioria dos aspectos, sua vida é próxima do ideal e que, 72,9% dos sujeitos concordam que estão satisfeitos com a sua vida, da maneira como ela é e, 41,7% dos entrevistados afirmaram que as condições de suas vidas são excelentes. Quanto ao Gênero, os homens se mostraram mais satisfeitos com a vida que as mulheres, bem como as pessoas mais religiosas e as pessoas mais velhas. Conclusão: O estudo demonstrou que o impacto da perda de algumas capacidades provocada pela necessidade especial, não parece ter implicado em grandes mudanças emocionais, em termos de satisfação com a vida na população estudada.

 

Palavras-chave: : Satisfação com a vida, necessidades especiais, cidadania

 

 

 

Introdução

 

O Bem-Estar, assim como as condições de trabalho das pessoas, em especial àquelas portadoras de alguma  necessidade especial  são uma realidade precária que preocupa pesquisadores de diversos países (Pavarini e Neri, 2000; Smrdel, 2003; Bruce, 2004; Von Vultée, 1999; Resende, Cunha, Silva e Sousa, 2007). São poucos os estudos com essa população em particular. Estudos sobre a satisfação com a vida dos médicos, de uma maneira geral, feita através da Canadian Medical Association revelaram que  65% deles relataram estarem insatisfeitos com as suas vidas, mais especificamente com seu trabalho (Sullivan, Buske, 1998).

No Brasil, esta população, especificamente, ainda demanda  estudos sobre a temática. Uma pesquisa sobre a Satisfação com a Vida em pessoas com amputação de membros, com 21 adultos, com idade média entre 42 a 62 anos, no município de Uberlândia, revelou que os entrevistados apresentaram Satisfação com a sua Saúde, Capacidade física, Capacidade Mental e Envolvimento Social, sendo maior a Satisfação com sua Saúde mental e com a Satisfação com a vida há 5 anos atrás (Resende, Cunha, Silva e Sousa, 2007).

 

 

 

Bem-estar subjetivo e Satisfação com a vida

 

O bem-estar subjetivo apresenta duas dimensões principais: uma afetiva, representada por afetos positivos  (prazer) e negativos (desprazer), e outra cognitiva, correspondendo à satisfação com a vida (Pavot et al., 1991). Segundo Diener et al.,(1985), apesar de esses componentes se correlacionarem entre si, representam construtos diferentes. Coerentemente, os pesquisadores têm identificado fatores afetivos e cognitivos claramente separados em suas medidas (Albuquerque, Tróccoli, 2003; Pavot,  Diener, 1993).

Boccolini (2000) acredita que as transformações ocorridas em indivíduos, pela  perda de capacidades, mais notadamente de uma mutilação, são percebidas de maneira global, na medida em que os indivíduos se vêem de alguma forma menos independentes,  podendo ocasionar maiores limitações e dificuldades no desempenho de diversas tarefas do seu dia-a-dia.

A perda da capacidade por conta da falta ou deficiência de um dos órgãos numa pessoa, faz com que sofra  modificações bruscas em sua vida, afetando  diretamente seu comportamento e a maneira  de agir (Botelho et al., 2003).  Dessa forma, as pessoas com necessidades especiais, têm o desafio de se ajustar psicologicamente de algum modo à perda da capacidade associada, ajustar-se à deficiência física, que pode ser potencialmente incapacitante e afetar as condições de saúde e bem-estar de pessoas (Ephraim et al., 2003).

Toda adaptação é um processo e, no caso da adaptação a perda da capacidade de algum órgão do corpo, este tende a ser gradual e pessoal. As experiências anteriores e histórias pessoais de saúde e doença, bem como fatores educacionais, de condições de vida e dos recursos econômicos que permitem acesso às tecnologias, são, segundo Freund e Baltes (1998), elementos que contribuem para uma mais ajustada compensação do déficit.

Um outro aspecto observado por Pavarini e Neri (2000) é que,  as pessoas com deficiência física podem  ativar mecanismos de adaptação para enfrentar perdas na funcionalidade, tanto  através de recursos tecnológicos, como de apoios psicológicos e sociais. Já Oliveira (2004), acredita que as incapacidades funcionais podem desestruturar o indivíduo, ao ponto de interferir no desempenho de regras e papéis sociais, na sua independência e  habilidade para realizar tarefas e, na sua capacidade afetiva.

Para Agree (1999), a deficiência, gerada pela perda de um dos membros ou órgão pode ser socialmente definida, sendo o produto do descompasso entre a limitação funcional que o indivíduo experimenta, as demandas ambientais e suas expectativas em relação ao desempenho das atividades da vida diária.

A conseqüente  necessidade especial gerada pela perda de uma capacidade física, coloca o indivíduo frente a uma multiplicidade de desafios físicos e psicossociais. Desde o prejuízos no funcionamento físico, uso de prótese, dor, mudança de emprego ou na ocupação, até  alterações na imagem corporal e no auto-conceito. Esta situação se apresenta como um grande desafio para o indivíduo manter o bem-estar emocional e, pode gerar reações inadequadas que podem conduzir a um desajuste psicossocial. Há que se considerar porém, as variações individuais no enfrentamento das próprias discapacidades. Muitos indivíduos conseguem sentir-se bem emocionalmente quando se sentem amparados por uma rede de relações (Desmond e MacLachlan, 2005).

Quando um indivíduo faz uma avaliação da própria vida em termos de bem-estar, isto é, quando a pessoa faz julgamentos conscientes sobre sua vida como um todo ou quando faz julgamentos sobre aspectos específicos como a saúde ou o próprio corpo; podendo também ser feita por meio do afeto quando o indivíduo vivencia emoções prazerosas ou desagradáveis e quando apresenta um estado de humor, ele está se referindo a um construto multidimencional. O Bem-estar subjetivo (Giacomoni, 2004).

O bem-estar subjetivo é uma experiência pessoal, privada e, suas medidas incluem tanto avaliação global, quanto avaliações particulares referenciadas a domínios, tais como saúde física e cognitiva, relações sociais, relações familiares e espiritualidade. O bem-estar subjetivo inclui medidas cognitivas (a Satisfação com a Vida e a Satisfação  referenciada a domínios mais específicos) e emocionais (as mais comuns são as medidas emocionais ou afetivas, referenciadas a valores positivos e negativos) (Neri, 2001).

Segundo Freire (2000), a vida pode ser satisfatória, com qualidade e bem-estar, especialmente quando há disposição para enfrentar os desafios que esta nos propõe. Esse intento fica mais fácil quando a pessoa conta com uma rede de suporte social.

A satisfação com a vida é a dimensão de interesse do presente estudo. Nosso objetivo é com a avaliação geral que as pessoas portadoras de necessidades especiais fazem de suas vidas (Diener et al., 1985; Pavot, Diener, 1993; Pavot et al., 1991). Dá-se, portanto, a possibilidade de que elas empreguem seu próprio e único conjunto de critérios para  avaliar sua qualidade de vida, ponderando e atribuindo subjetivamente pesos diferentes às diversas dimensões que queira levar em conta.

A Satisfação com a Vida tem sido estudada recentemente como um componente cognitivo do Bem-estar subjetivo (Albuquerque, Tróccoli, 2003; Kim, 2004; Lee, 1998). Na literatura são encontradas mais medidas do componente afetivo do bem-estar subjetivo (Diener et al., 1985; Pavot, Diener, 1993), observa-se, contudo, que a maioria dos instrumentos disponíveis apresenta alguma limitação, como contar com um único item, ter sido construído para populações específicas (por exemplo, crianças, idosos) e cobrir fatores outros que não especificamente a satisfação com a vida (Diener et al., 1985). Para evitar-se essas limitação, propôs-se a Satisfaction With Life Scale-SWLS (Diener et al., 1985), cujas qualidades psicométricas já foram avaliadas para amostras brasileiras (GOUVEIA, VV, et. al., 2003 e  OLIVEIRA, G.F. 2008).

 

 

Escala de Satisfação com a Vida

 

A Escala de satisfação com a Vida (ESV) tem o propósito de  avaliar a forma como as pessoas se julgam acerca do quanto estão satisfeitas com suas vidas. A medida de Satisfação com a Vida elaborada por  Diener et al. (1985), apresenta itens de  natureza global, que avaliam o julgamento geral da satisfação que as pessoas percebem nas suas vidas. O julgamento sobre que domínios considerar sobre suas vidas, fica a critério único e exclusivo dos respondentes, tendo em conta seus próprios interesses e valores.

Trata-se de uma escala unifatorial, isto é, seus itens cobrem um só fator (Satisfação com a Vida) e possui a vantagem de ser simples e breve (Pavot, Diener, 1993; Pavot et al., 1991), podendo ser utilizada em diferentes grupos de pessoas e faixas etárias como crianças (Atienza et al., 2000), adolescentes (Atienza, Balaguer, García-Merita, 2003; Neto, 1993b; Pons et al., 2000; Gilman, Huebner, 2001), adultos (Arrindell, Heesink, Feij, 1999; Blais et al., 1990), pessoas idosas (Pavot et al., 1991; Pons et al., 2002), estudantes universitários (Diener et al., 1985; Shevlin, Bunting, 1995), pacientes médicos não-psiquiátricos (Arrindell, Meeuwesen, Huyse, 1991), mulheres grávidas (Martinez et al., 2004) e migrantes (Neto, 1993, 2001).

 A ESV vem sendo administrada amplamente em diversos países (Pavot, Diener, 1993), com tradução para francês (Blais et al., 1990; Fouquereau, Rioux, 2002), holandês (Arrindell, Heesink, Feij, 1999;Arrindell, Meeuwesen, Huyse, 1991), russo (Balatsky, Diener, 1993), árabe (Abdallah, 1998), checo (Lewis et al., 1999), chinês (Sachs, 2004), espanhol (Atienza, Balaguer, García-Merita, 2003; Atienza et al., 2000; Pons et al., 2000, 2002) e, inclusive, português (Neto, 1993).

Sua estrutura fatorial e fidedignidade foram comprovadas em diversos estudos. As análises fatoriais realizadas, tanto exploratórias como confirmatórias, têm demonstrado que seus cinco itens cobrem uma única dimensão (Atienza et al., 2000; Diener et al., 1985; Lewis et al., 1995, 1999; Pavot et al., 1991; Shevlin, Bunting, 1995). Esses resultados  demonstram a adequação dessa medida como sendo válida e precisa para avaliar o julgamento geral que as pessoas fazem de sua satisfação com a vida, ao menos em outros países.

No Brasil, alguns estudos para medir o bem-estar subjetivo (Albuquerque, Tróccoli, 2003; Gouveia et al., 2003; Wagner et al., 1999; Oliveira, G.F. 2008), utilizaram a escala de Satisfação com a Vida. Apesar das qualidades da ESV, não foram encontradas pesquisas brasileiras em que ela tenha sido empregada para conhecer a satisfação com a vida dos portadores de necessidades especiais.

Como antes ficou evidenciado, tal medida cobre um dos componentes fundamentais desse bem-estar: o cognitivo. Entretanto os pesquisadores, talvez por escassez de medidas adequadas sobre tal componente, têm insistido em avaliar aqueles afetivos ou emocionais, cujos meios para avaliá-los estão mais presentes neste país (Gouveia et al., 2003).

Portanto, adaptá-la a este contexto se constitui ainda em uma possibilidade futura, haja visto que este estudo avalia uma amostra ainda insuficiente para a validação deste construto em população de portadores de necessidades especiais. Este estudo avalia especificamente a Satisfação com a Vida em portadores de necessidades especiais apenas no Município de Juazeiro do Norte, Ceará.

 

 

Método

 

Fizeram parte deste estudo 48 pessoas, todas portadoras de alguma necessidade especial, excetuando-se os deficientes mentais, com idades variando entes 14 e 71 anos (média 40,75 ±15,16), a maioria do sexo masculino (60,4%).

A coleta de dados foi realizada no município do Juazeiro do Norte, no período de julho a agosto de 2008. A amostra foi de conveniência, uma vez que contou apenas com a participação daqueles que se dispuseram a responder.

A seguir, apresenta-se as as principais características da amostra.

 

Houve um certo equilíbrio com relação a faixa etária dos participantes, sendo todas as faixas contempladas. Porém a amplitude foi bastante acentuada, de 14 anos a 72 anos, o que tende a refletir em algumas das análises.(mínimo = 14 e máximo = 43; desvio padrão = 5,41).

Dos participantes, 60,4% foram do sexo masculino e 39,6% do sexo feminino. Quanto ao estado civil, 50,0% são casados ou convivem maritalmente com um(a) companheiro(a); 18% se disseram solteiros, 1% Viúvo e  5% estava separado à época da pesquisa.

Com relação à Religião, 60,4% se auto-designou católico; 14,6% protestante; 6,2% Espírita; 2,1% responderam que têm outra religião e, 16,7%  não freqüenta ou participa de  nenhum segmento religioso.

Quanto a religiosidade, 45,8% se consideram muito religiosos; 10,4%% se considera normal ou regular; 18,8% pouco religiosos; 10,4% muito pouco religiosos e 14,6% se consideram nada religiosos.

Em se tratando Classe social, observou-se que 31,2% se considera da classe baixa, 60,4% da classe média e 8,3% da classe alta.

Quanto à renda familiar, observamos que os sujeitos são provenientes de lares muito simples, tendo em vista que a renda média das famílias não chega a um e meio salário mínimo vigente.

Segundo Martins et al. (2001), há uma certa tendência de mulheres de baixo nível socioeconômico engravidarem mais, terem menos acesso ao pré-natal e a serviços de apoio, apresentarem maior probabilidade de bebês de baixo peso e/ou prematuros, menos matrimônio regularizados e, ao longo do tempo, tendem a acumular fatores de risco. Maturano (1997) observou que os aspectos socioeconômicos interferem no desenvolvimento da criança, assim como conseqüências da pobreza e estrutura familiar.

A escolaridade variou da seguinte forma: 41% nem chegou a completar o ensino fundamental; 8,3% possui o ensino médio incompleto; 27,1% o ensino médio completo, 14,6% possui o ensino superior incompleto e apenas 8,3% completou o ensino superior.

No caso da situação laboral, 29,2% encontrava-se empregado; 33,3% encontrava-se desempregado; 2,1% abandonou a profissão; 22,9% estava aposentado aposentado; 2,1% afastado temporariamente e 10,4% estavam em outra situação.

Quanto ao fato da necessidade especial mudar alguma coisa nas relações dos participantes, 60,4% respondeu que não observou qualquer mudança significativa e 18% disse que sim, que havia mudado algo nas suas relações.

A renda média dos participantes variou da seguinte forma: 48,0% disseram receber até um Salário Mínimo vigente; 16,7% de mais de um, até dois salários mínimos vigente; 6,2% mais de dois até  três salários mínimos vigentes; 2,1% mais de três até quatro salários mínimos vigentes;  10,4% mais de quatro salários mínimos vigente e, 16,1% não respondeu a esta questão.

 

 

Instrumentos

 

Os participantes responderam a um questionário contendo dois blocos de perguntas que procuravam conhecer os seguintes aspectos: (1) Satisfação com a vida; (2) Características sócio-demográficas, (3) impacto da necessidade especial na vida do participante.

A Escala de Satisfação com a Vida (Diener et al., 1985) é composta por cinco itens que avaliam um dos componente cognitivo do bem-estar subjetivo (por exemplo, na maioria dos aspectos, minha vida é próxima ao meu ideal; se pudesse viver uma segunda vez, não mudaria quase nada na minha vida). Os participantes dão suas respostas em  uma escala de 7 pontos, com os extremos 1 (discordo totalmente)  e 7 (concordo totalmente). A versão brasileira teve em conta  inicialmente aquela portuguesa encaminhada por Ed Diener (Neto,  1993), realizando ajustes no sentido de torná-la culturalmente  mais adequada (Anexo).

As Características Sócio-Demográficas tiveram o objetivo de demonstrar um perfil da amostra, envolvendo questões tais como: Sexo, Idade, Estado civil, Escolaridade, Renda média, dentre outras. O Impacto da Necessidade Especial na vida dos sujeitos foi obtido através das seguintes perguntas: Você considera essa necessidade uma deficiência?; O fato de ser portador de necessidade especial muda alguma coisa nas suas relações interpessoais?.

 

 

Procedimento

 

Os locais escolhidos para a coleta dos dados foram: Órgãos Públicos (Escolas, Prefeitura); Praças Públicas e, eventualmente residências dos sujeitos, por indicação dos próprios entrevistados.

 

 

Análise dos dados

 

As respostas dos participantes foram inicialmente armazenadas em um arquivo do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS 11.5). Com este programa, utilizaram-se análises estatísticas descritivas e de tomada de decisão; uni, bivariadas: freqüência, percentual, média e desvio padrão; o teste t de student (compara escores médios de dois grupos); a ANOVA (Compara escores médios de três grupos); o qui-quadrado (χ2) para verificar se há diferença estatisticamente significativa entre freqüência observada e esperada em tabelas de contingenciamento de variáveis categóricas.

A margem de erro deste estudo é de até cinco pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.

.

 

 

Resultados

 

A tabela 10 a seguir mostra o resultado das estatísticas descritivas e diferenças entre sexo.

 

 

Tabela 10: Diferenças entre Sexo e  relação com a satisfação com a vida

Sexo

Média

Desvio padrão

t de student

Homem

27,82

6,08

2,73; 0,009

Mulher

21,37

10,31

Nota:  Significativo para p< 0,05.

           

Os sujeitos apresentaram uma média de satisfação com a vida de  25,27 (DP = 8,54), que se situou acima da mediana teórica da pontuação total da escala (M = 15; amplitude 5-35), t  = 2,73,  p < 0,05.

Esta parece ter sido afetada pelo sexo dos Portadores de Necessidades Especiais. Homens (M = 27,82; DP = 6,08) se mostraram mais satisfeitos com suas vidas que as mulheres (M = 21,37; DP = 10,31), para t=2,73 e p<0,05.

            Tentamos relacionar a Idade e Satisfação com a Vida. Por conta do tamanho da amostra (< 200 sujeitos), foi realizada uma correlação r de Pearson (bi-caudal), entre Idade e a pontuação total da Satisfação com a Vida. Na oportunidade não houve significância estatística (r = -0,14, p > 0,05), podendo ser interpretado como existindo uma tendência a que,  quanto mais velho a pessoa portadora de necessidades especiais, menos bem-estar ela experimenta. Verifica-se pelas estatísticas descritivas de idade que há muita variabilidade entre poucos sujeitos (n = 48, Amplitude = 14 à 71 anos;  M = 41 e DP = 15). Se aumentarmos o tamanho da amostra, é possível que se consiga que a  significância corrobore com esta tendência.

Quanto ao fato de se considerar ou não, Portador de Necessidade Especial não influenciou na Satisfação com a Vida dos Participantes. Da mesma forma com o fato da Necessidade Especial mudar  ou não, algo na vida dos participantes e a Satisfação com a vida. Em nenhum dos casos houve significância estatística para corroborar essa hipótese.

            Quanto ao papel da Classe Social na pontuação da Satisfação com a vida, através de uma análise da variância (ANOVA), constatou-se com o teste post hoc de Scheffe (p< 0,05) serem menores as médias dos sujeitos de classe social mais baixa (18,53) e maiores as médias em Satisfação com a Vida naqueles de classe social mais alta (28,50). Em resumo, quanto maior a Classe social, maior a Satisfação com a Vida dos Portadores de Necessidades Especiais.

Através da análise ANOVA verificou-se não haver diferenças significativas entre o quanto se é religioso e a Satisfação com a vida. Isso é, não foi constatado efeito de interação significativo entre essas duas variáveis (F=0,06; p>0,05), no caso dessa amostra de Portadores de Necessidades Especiais.

 

 

 

Discussão

 

O objetivo principal deste estudo foi conhecer a Satisfação com a Vida em uma amostra de pessoas portadoras de necessidades especiais à partir da versão brasileira da ESV (Diener et al., 1985), e, espera-se que tenha sido alcançado. Como afirmado na introdução, esta é uma medida amplamente empregada em diversos países, considerando amostras variadas (Pavot, Diener, 1993). Porém não foram encontradas informações no Brasil acerca do seu uso para conhecer a satisfação que os Portadores de Necessidades Especiais apresentam com suas vidas.

Apesar de não se contar com uma amostra aleatória que possa representar fielmente as características da população de Portadores de Necessidades Especiais no Brasil, fez-se um esforço por constituir um grupo  de pessoas com essas características no Município do Juazeiro do Norte, estado do Ceará. Neste sentido, confia-se estar oferecendo uma contribuição ao entendimento da Satisfação com a Vida desta parcela da população. A seguir destacam-se os principais resultados observados.

 

 

Satisfação com vida, sexo e idade

 

Apesar das condições de trabalho adversas que os Portadores de Necessidades especiais parecem enfrentar, no geral as pessoas que compuseram a amostra desse grupo populacional relataram estarem satisfeitos com suas vidas.

Os resultados demonstraram que 70,9% dos entrevistados acreditam que na maioria dos aspectos, sua vida é próxima do ideal e que, 72,9% dos sujeitos concordam que estão satisfeitos com a sua vida da maneira como ela é e, 41,7% dos entrevistados afirmaram que as condições de suas vidas são excelentes.

Sua pontuação média (M = 25,2) está dentro da amplitude que permite classificá-los como ligeiramente satisfeitos (21 a 25 pontos) (Pavot, Diener, 1993).

Quanto às respostas dadas a cada um dos cinco itens desta  medida, merece particular atenção as maiores médias, em termos de concordar totalmente, verificadas  para os itens 3: Estou satisfeito(a) com minha vida e 4: Dentro do possível tenho conseguido coisas importantes que quero da vida. Provavelmente, o conteúdo destes  itens refletem o sentimento de auto-realização. Seguramente não se limita a eventuais bens materiais conseguidos, pois, como também se viu, os item 2 (As condições da minha vida são excelentes) e 5 (Se pudesse viver uma segunda vez, não mudaria quase nada na minha vida) foram sistematicamente os que receberam menor pontuação.

A satisfação com a vida foi afetada pelo sexo dos Portadores de Necessidades Especiais. Homens (M = 27,82; DP = 6,08) se mostraram mais satisfeitos com suas vidas que as mulheres (M = 21,37; DP = 10,31), para t=2,73 e p<0,05. Este resultado foi coerente com o constatado em pesquisas prévias que consideraram diversos grupos amostrais (Arrindell, Heesink, Feij, 1999; Shevlin, Brunsden, Miles, 1998; Pavot, Diener, 1993).

A pontuação de satisfação com a vida não variou em função da idade dos participantes. Concretamente, algumas pesquisas consideram que pessoas mais velhas apresentam maior satisfação com a vida (Ehrlich e Isaacowitz , 2002). É possível que o tamanho da amostra (< 200 sujeitos) tenha influenciado os resultados.

Com relação a satisfação com a Vida e Classe Social, observou-se maiores médias em Satisfação com a vida no grupo de classe social mais alta (M = 28,50) e menores médias no grupo que se auto-designou de classe social mais baixa (M = 18,53). Ehrlich e Isaacowitz (2002) demonstraram que pessoas de classe social mais alta experimentam maior Satisfação com suas vidas devido ao fato de que, em geral, tendem a gozarem de estabilidade e realização pessoal, o que lhes permite inclusive maior otimismo diante da vida.

 

 

Conclusão

 

Em resumo, observou-se indícios de que o impacto da perda de algumas capacidades provocada pela necessidade especial, não implicaram em grandes mudanças emocionais, em termos de satisfação com a vida na população estudada. Entretanto recomendam-se novos estudos em que possam utilizar um universo maior de sujeitos, inclusive com uma maior variedade de Necessidades Especiais, tais como a falta de visão, e o surdo-mudismo, por exemplo, uma vez que a quase totalidade dos  participantes desta pesquisa tinha deficiência motora.

As relações sociais, as redes de relações e o apoio social são tópicos atuais da Psicologia, especialmente no que diz respeito às contribuições que esta ciência pode dar ao Bem-Estar e Satisfação com a Vida das pessoas (Neri, 2004). Acreditamos que estudos futuros que utlizem o argumento em favor da idéia de que as relações sociais podem, de várias formas, promover melhores condições de saúde, podem nos esclarecer mais sobre a temática da Satisfação com a Vida em pessoas com Necessidades Especiais. Segundo Ramos (2002), a ajuda recebida e a ajuda dada contribuem para um senso de controle pessoal, e isso tem uma influência positiva no bem-estar e na Satisfação com a Vida das pessoas.

 

 

 

Referências

 

ABDALLAH T. The Satisfaction With Life Scale (SWLS): Psychometric  properties in an Arabic-speaking sample. International Journal of  Adolescence and Youth, 7: 113-9, 1998.

ALBUQUERQUE AS, TRÓCCOLI BT. Desenvolvimento de uma escala de bem-estar subjetivo. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 20: 153-64, 2003.

ARRINDELL WA, HEESINK J, FEIJ JA. The Satisfaction With Life Scale (SWLS): Appraisal with 1700 health young adults in The Netherlands. Personality and Individual Differences, 26: 815-26, 1999.

ARRINDELL WA, MEEUWESEN L, HUYSE FJ. The Satisfaction With Life Scale (SWLS): psychometric properties in a non-psychiatric medical outpatients sample. Personality and Individual Differences, 12: 117-23, 1991.

ATIENZA FL, BALAGUER I, GARCÍA-MERITA M. Satisfaction With Life Scale: analysis of factorial invariance across sexes. Personality and Individual Differences, 35: 1255-60, 2003.

ATIENZA FL, PONS D, BALAGUER I, GARCÍA-MERITA M. Propiedades psicométricas de la Escala de Satisfacción con la Vida en adolescentes. Psicothema, 12: 314-9, 2000.

BALATSKY G, DIENER E. A comparison of the well-being of Soviet and American students. Social Indicators Research, 28: 225-43, 1993.

BLAIS MR, VALLERAND RJ, PELLETIER LG, BRIERE NM. L’echelle de satisfaction de vie: Validation canadienne-francaise du “Satisfaction With Life Scale”.  Canadian Journal of Behavioural Science, 21: 210-23, 1990.

BRUCE S. Physician burnout: a pilot study. New Zealand Medical Student Journal, 1: 14-9, 2004.

DIENER E, EMMONS RA, LARSEN RJ, GRIFFIN S. The Satisfaction With Life  Scale. Journal of Personality Assessment, 49: 71-5, 1985.

EHRLICH BS, ISAACOWITZ DM. Does subjective well-being increase with age?  Perspectives in Psychology, 5: 20-6, 2002.

FOUQUEREAU E, RIOUX L. Elaboration de l’Echelle de Satisfaction de Vie Professionnelle (ESVP) en langue francaise: une demarche exploratoire.  Canadian Journal of Behavioural Science, 34: 210-5, 2002.

GILMAN R, HUEBNER ES. Review of life satisfaction measures for  adolescents. Behaviour Change, 17: 178-95, 2001.

GOUVEIA VV, CHAVES SS, OLIVEIRA ICP, DIAS MR, GOUVEIA RSV,ANDRADE PR.  A utilização do QSG-12 na população geral: estudo de sua validade  de construto. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 19: 241-8, 2003.

KIM D-Y. The implicit life satisfaction measure. Asian Journal of Social  Psychology, 7: 236-62, 2004.

LEE S. Marital status, gender and subjective quality of life in Korea.  Development and Society, 27: 35-49, 1998.

LEWIS CA, SHEVLIN ME, SMEKAL V, DORAHY MJ. Factor structure and reliability  of a Czech translation of the Satisfaction With Life Scale among Czech  university students. Studia Psychologica, 41: 239-44, 1999.

MARTÍNEZ JC, MARTÍNEZ MR, GARCIA JC, CORTES IO, FERRER AR, HERRERO BT.  Fiabilidad y validez de la Escala de Satisfacción con la Vida de Diener  en una muestra de mujeres embarazadas y puérperas. Psicothema,  16: 448-55, 2004.

NETO F. The Satisfaction With Life Scale: psychometrics properties in an  adolescent sample. Journal of Youth and Adolescence, 22: 125-34,  1993.

NETO F. Satisfaction with life among adolescents from immigrant families in Portugal. Journal of Youth and Adolescence, 30: 53-67, 2001.

PAVOT W, DIENER E. Review of the Satisfaction With Life Scale. Psychological

Assessment, 5: 164-72, 1993.

PAVOT W, DIENER E, COLVIN CR, SANDVIK E. Further validation of the  Satisfaction With Life Scale: evidence for the cross-method  convergence of well-being measures. Journal of Personality  Assessment, 57: 149-61, 1991.

PONS D, ATIENZA FL, BALAGUER I, GARCÍA-MERITA ML. Satisfaction With Life  Scale: analysis of factorial invariance for adolescents and elderly  persons. Perceptual and Motor Skills, 91: 62-8, 2000.

PONS D, ATIENZA FL, BALAGUER I, GARCÍA-MERITA ML. Propiedades  psicométricas de la Escala de Satisfacción con la Vida en personas  de tercera edad. Revista Iberoamericana de Diagnóstico y Evaluación  Psicológica, 13: 71-82, 2002.

SACHS J. Validation of the Satisfaction With Life Scale in a Sample of Hong  Kong University Students. Psychologia, 46: 225-34, 2004.

SHEVLIN ME, BUNTING BP. Confirmatory factor analysis of the Satisfaction  With Life Scale. Perceptual and Motor Skills, 79: 1316-8, 1995.

SMRDEL ACS. Experiencing professional strains of nurses, radiation  engineers and physicians working at the Institute of Oncology in  Ljubljana. Radiology and Oncology, 37: 249-55, 2003. J Bras Psiquiatr 54(4): 298-305, 2005

SULLIVAN P, BUSKE L. Results from CMA’s huge 1998 physician survey point controlled intervention study of management development programs  to a dispirited profession. Canadian Medical Association Journal, targeting female physicians. 2004. Tese. Faculdade de Medicina,  159, 54-8, 1998. Universidade Uppsala, Suécia.

VON VULTÉE PJ. Physicians’ work environment and health: a prospective Pesquisa, 12: 147-56, 1999.

RESENDE, M. C.; CUNHA, C.P,B, SILVA, A P., SOUSA, S. J. Rede de relações e Satisfação com a Vida em pessoas com amputação de membros. Rev Ciências & Cognição 2007; Vol 10: 164-177.

 

 

 

 

 Anexos

 

 

1 - Questionário de Informações Sócio-econômicas

Instruções. Gostaríamos de conhecer algo mais acerca de nossos participantes. Não é necessário identificar-se, sendo as respostas tratadas no conjunto.

 

01. Idade: _____anos                  02. Sexo: (  ) Masculino  (  ) Feminino

 

03.Estado Civil:(  ) Casado/Convivente  (  )Solteiro  (  )Viúvo  (  )Separado/Divorciado

 

04. Religião: (  )Católica  (  )Protestante  (  )Espírita  (  )Nenhuma

Outra:________________________

 

05. O quanto você é religioso? (circule)     Nada  0    1    2    3    4  Muito

 

06. Em comparação com as pessoas da sua cidade, você diria que é da... (circule)

 

         1      2      3      4      5      6      7      8      9      10

Classe baixa                Classe média             Classe alta

 

07. Qual a sua escolaridade? _____________________________________

 

08. Você é portador de alguma necessidade especial?  (  ) Não     (  ) Sim

 

09. Em caso positivo, qual? ___________________________

 

10. Você considera essa necessidade uma deficiência?  (  ) Não     (  )Sim

 

11. Por quê? ____________________________________________________________

______________________________________________________________________

 

12. Qual sua situação laboral atual? (marque uma única opção)

(  ) Empregado                             (  ) Desempregado                      (  ) Aposentado

(  ) Abandonou a profissão          (  ) Afastado temporariamente

Outra:______________________________

 

13. O fato de ser portador de necessidade especial muda alguma coisa nas suas relações interpessoais?   (  ) Não      (  ) Sim

 

14. Em caso positivo, o quê? _____________________________________________

______________________________________________________________________

 

15. Qual sua renda mensal aproximada? (em reais): R

 

16. Quanto você acha que deveria receber mensalmente? R

 

17. O que você faria de diferente na sua vida se pudesse recomeçar e mudar algo?

 

 

 

 

 

2 - Escala de Satisfação com a Vida

 

 

Instruções: Abaixo você encontrará cinco afirmações com as quais pode ou não concordar. Usando a escala de resposta a seguir, que vai de 1 a 7,

indique o quanto concorda ou discorda com cada uma; escreva um número no espaço ao lado da afirmação, segundo sua opinião. Por

favor, seja o mais sincero possível nas suas respostas.

 

 

7 = Concordo totalmente

6 = Concordo

5 = Concordo ligeiramente

4 = Nem concordo nem discordo

3 = Discordo ligeiramente

2 = Discordo

1 = Discordo totalmente

 

 

1._____Na maioria dos aspectos, minha vida é próxima ao meu ideal.

2._____As condições da minha vida são excelentes.

3._____Estou satisfeito(a) com minha vida.

4._____Dentro do possível, tenho conseguido as coisas importantes que quero da vida.

5._____Se pudesse viver uma segunda vez, não mudaria quase nada na minha vida.

 

 ˜

Sobre os autores:

 

1. Gislene Farias de Oliveira é Psicóloga e Professora adjunta da Faculdade de Medicina

           da   Universidade Federal do Ceará. E-mail: gislenefo@hotmail.com;
2. Janine Priscilla Soares Pereira Costa é Acadêmica de Medicina da Universidade

           Federal do Ceará. E-mail: janinepriscillapaz@hotmail.com;
3. Gésio Eduardo Antas Rodrigues é Acadêmico de Medicina da Universidade Federal do

           Ceará.

 

Criar um Site Grátis    |    Create a Free Website Denunciar  |  Publicidade  |  Sites Grátis no Comunidades.net